terça-feira, 4 de novembro de 2025

📘 Resenha: O Mundo como Vontade e Representação — Arthur Schopenhauer

 Publicado em 1818, O Mundo como Vontade e Representação é a obra-prima de Arthur Schopenhauer, um dos filósofos mais influentes do século XIX. Nela, o autor propõe uma visão radical e profundamente metafísica da realidade, unindo a tradição kantiana à influência do pensamento oriental — especialmente o budismo e o hinduísmo — em uma síntese original e provocadora.


🧩 A Tese Central

Schopenhauer parte de uma distinção fundamental: o mundo pode ser compreendido sob duas perspectivas complementarescomo representação (Vorstellung) e como vontade (Wille).

  1. O mundo como representação
    Inspirado em Kant, Schopenhauer afirma que tudo o que percebemos é uma representação mental — uma construção mediada por nossos sentidos, tempo, espaço e causalidade. Não conhecemos o “mundo em si”, apenas o modo como ele aparece à consciência. O sujeito, portanto, é o centro da experiência, e o mundo exterior só existe enquanto é percebido.
  2. O mundo como vontade
    Por trás das aparências, Schopenhauer identifica uma força cega, irracional e incessante — a vontade. Essa vontade é o núcleo metafísico de toda a realidade: é o impulso que move a natureza, os seres vivos e, sobretudo, o ser humano. A vontade é desejo, carência, esforço — e é ela que perpetua o ciclo do sofrimento e da insatisfação.

💭 O Ser Humano e o Sofrimento

Para Schopenhauer, viver é desejar — e desejar é sofrer. A vontade nunca se satisfaz completamente, pois, ao alcançar um objetivo, logo cria outro. Assim, o sofrimento é inerente à existência. A vida humana é uma luta constante contra o tédio, a dor e a frustração, e a felicidade plena é uma ilusão passageira.


🎨 A Arte e a Superação da Vontade

Apesar do pessimismo, Schopenhauer oferece caminhos para a suspensão do sofrimento. A arte, especialmente a música, é uma via privilegiada de contemplação pura, na qual o indivíduo se liberta momentaneamente do querer e se funde com a essência universal das coisas. O gênio artístico é aquele que consegue transcender o interesse pessoal e perceber o mundo como pura forma, sem desejo.

Outro caminho é o da compaixão e ascese, em que o indivíduo, ao compreender o sofrimento como algo comum a todos os seres, renuncia à vontade individual e busca a libertação interior — uma ideia próxima à iluminação budista.


🕯️ Estilo e Legado

Com uma escrita vigorosa, Schopenhauer combina profundidade metafísica e linguagem acessível, tornando sua filosofia ao mesmo tempo rigorosa e poética. Sua influência atravessou fronteiras e séculos, impactando autores como Nietzsche, Freud, Wagner, Tolstói e Thomas Mann.


🌌 Síntese

O Mundo como Vontade e Representação é uma obra sobre a condição humana e o mistério da existência. Schopenhauer revela um universo movido por uma força irracional e inconsciente, onde o homem, ao tomar consciência de sua própria vontade, pode finalmente buscar a serenidade na compreensão e na renúncia.

🖋️ Em essência: compreender o mundo é compreender a si mesmo — e libertar-se do querer é o primeiro passo para tocar o inefável da existência.



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